Inteiro ou Quebrado — Abraham Cezar

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Eu confesso que nunca imaginei que chegaria até aqui.
Na verdade, sempre pensei que
talvez eu nem sobreviveria aos meus próprios 22 anos.
Mas me encontro bem.
Têm sido dias corridos.
Têm sido dias corridos.
Parece que me sinto pressionado,
como quando eu era criança:
cobrado.

Mas, desta vez,
não há um rosto atrás da exigência;
é a própria vida quem me convoca,
abrindo a palma da mão
como quem diz:
vem, vem inteiro ou quebrado,
mas venha.

E eu vou, sólido por fora,
mesmo que por dentro algo se desfaça.
Não vacilo na superfície:
o mundo me olha
e eu sustento o olhar,
o corpo intacto,
criado à luz das Sefirot,
respirando pelas bordas
sem pedir socorro.

Há dias em que acordo
com o peito apertado,
como se carregasse dentro de mim
um relógio que não aceita pausas.
E, ainda assim, descubro
que sobreviver é um verbo mais largo
do que o medo suportaria.

Cresci acreditando
que o mundo queria algo de mim;
hoje percebo que era mais eu
que queria demais de mim mesmo:
queria ser suficiente,
queria ser mais forte que o cansaço,
queria ser firme o bastante
para não quebrar.

Mas há uma sabedoria discreta
no instante em que admito
que não sou aço,
que nunca fui metal,
que sou feito de um barro dado vida,
capaz de se moldar diante do inesperado.
E, quando aceito isso,
tudo se alivia.

Sim, têm sido dias corridos,
mas também têm sido dias meus.
E, pela primeira vez,
sinto que avanço não por obrigação,
mas pela estranha e inegociável
vontade de existir com mais clareza.

Talvez seja isso crescer:
deixar que a vida cobre,
mas responder começando por dentro,
com uma honestidade tão profunda
que suas dores e fraquezas sejam expostas
assim como seriam suas qualidades.
Sem medo.

Abraham Cezar

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