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No núcleo do centro, onde o ar range como metal fatigado,
ergue-se uma mesa de pedra marcada por sulcos
que nenhum ferramental humano confessa ter feito.
Ali deposito o pulso — não por fé, mas por teste.
A pedra responde com um estalo cego,
como se medisse o meu peso moral
e encontrasse falhas estruturais no osso.
Do alto, não cai luz: cai uma pressão antiga,
uma gravidade que aprendeu a pensar.
Ela se dobra sobre mim, inquisitiva,
como fera que fareja o motivo exato do meu medo.
Um corredor se abre sem portas.
As paredes são ásperas, mas respiram devagar,
com o som abafado de um animal que não dorme há séculos.
A cada passo, o chão recolhe minhas pegadas
antes que eu termine de fazê-las: evidência recusada.
Nada fala, mas algo entende.
E o entendimento, quando chega, rasga:
vejo gestos que nunca fiz,
vejo escolhas que já me escolheram,
vejo um eu escondido na carcaça de outro eu
que ainda não aprendi a abandonar.
No centro do corredor, um objeto sem forma gira.
Contemplo-o como quem encara um crime sem testemunhas.
Ele muda, massa que se dobra em si mesma,
massa que pressente meu pensamento
e o corrompe só para verificar o quanto aguento.
Toco-o.
E a coisa devolve um fragmento do que sou,
mas polido de modo cruel:
mostra-me intenções que nunca admiti,
o impulso nu, sem desculpa,
a moral antes de virar discurso.
Avanço.
Ou recuo.
O espaço não se importa, move-se comigo,
docilmente hostil,
como um carcereiro paciente demais.
Por fim, encontro o fim
não como saída, mas como interrupção.
Um limite bruto, opaco, inegociável.
Estendo a mão: ele pulsa, mas não cede.
E compreendo, tarde demais,
que não era caminho: era diagnóstico.
Fico.
Não por resignação, por precisão.
Algumas verdades exigem confinamento
para não corroer o resto do mundo.
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