{
“@context”: “https://schema.org”,
“@type”: “Article”,
“headline”: “Ser Enganado”,
“alternativeHeadline”: “Sobre padrões, percepção e a anatomia da mentira”,
“description”: “Um ensaio profundo sobre engano, percepção corporal e os mecanismos silenciosos da mentira.”,
“datePublished”: “2018-11-14T22:45:00”,
“dateModified”: “2018-11-14T22:45:00”,
“wordCount”: 1327,
“articleSection”: “Ensaios”,
“keywords”: [“engano”,”mentira”,”percepção”,”manipulação”,”verdade”],
“isFamilyFriendly”: true,
“inLanguage”: “pt-BR”,
“mainEntityOfPage”: {
“@type”: “WebPage”,
“@id”: “/pt.abrahamcezar.com//2018/11/ser-enganado.html”
},
“author”: {
“@type”: “Person”,
“url”: “https://abrahamcezar.com”
},
“publisher”: {
“@type”: “Organization”,
“name”: “Abraham Cezar”
},
“copyrightHolder”: {
“@type”: “Organization”,
“name”: “Abraham Cezar”
},
“copyrightYear”: “2018”
}
Você não a vê no começo, só percebe quando uma dobradiça começa a chiar em horários estranhos, quando a porta demora meio segundo a mais para fechar, quando o cotidiano ganha uma aspereza que ninguém assume. Enganar alguém é como trocar as placas de um prédio à noite: por fora tudo parece no lugar, mas, quando você entra, os corredores não levam mais a lugar nenhum.
Ela estava ali também, sentada com a bolsa no colo como se segurasse uma criança invisível. Não era uma mulher derrotada, era uma mulher em suspensão, esse estado em que o corpo permanece e a esperança faz plantão. O casamento dela não estava acabando numa explosão, estava acabando num gotejamento.
Ela sabia que estava sendo enganada, sabia do jeito que se sabe quando o próprio nome muda de sabor na boca do outro. Não foi uma mensagem descoberta como em novela, foi um conjunto de sinais pequenos demais para virar prova e grandes demais para virar imaginação.
Quem é enganado por muito tempo aprende um tipo de leitura triste, aprende a medir a temperatura do afeto como quem mede febre sem termômetro.
Eu a vi agir de modo reativo e compreendi que reatividade nem sempre é ataque; às vezes é defesa tardia.
O corpo dela denunciava o desgaste: olhos que buscavam confirmação nos cantos, mãos que não descansavam, uma atenção que voltava sempre ao mesmo ponto.
Eu penso, observando as pessoas naquele saguão, que engano é uma forma de guerra que se disfarça de paz.
O enganador, quando é habilidoso, sabe que não precisa construir uma mentira perfeita, só precisa administrar percepções.
O corpo quase sempre sabe antes do intelecto terminar a frase.
Engano não se prova por um gesto; engano se reconhece pelo desenho repetido do mesmo mecanismo.
O enganado é como alguém que mora numa casa e, sem perceber, troca de vizinho com uma inteligência que se infiltra à noite.
O choque de ouro, para mim, é este: não é a mentira que mais machuca, é o insulto à sua percepção.
Repare no padrão que se repete quando ninguém está performando, porque a verdade pode ser simples, pode até ser dolorosa, mas ela não precisa ser defendida o tempo inteiro.
A mentira, sim. A mentira exige guarda. A verdade, quando existe, respira.

Deixe um comentário