Escorpião Sem Ferrão
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Eu tava pensando numa coisa que parece boba, mas quanto mais eu penso, mais ela fica tipo uma pergunta que coça por dentro: se você pega um escorpião e corta o ferrão dele, pronto, acabou o ferrão, ele não consegue mais ferrar ninguém, até aí ok, mas aí vem a parte que me deixa meio doido, porque quando esse escorpião crescer e fizer filhotes, os filhotes vão nascer com ferrão? Porque tipo… o pai ou a mãe não tem mais ferrão, então por que o bebê teria? Aí eu imagino duas possibilidades e as duas são estranhas de um jeito diferente: a primeira é que os filhotes nascem com ferrão mesmo assim, e aí quer dizer que o ferrão não é só uma coisa que tá ali fora, é tipo uma informação escondida dentro dele, como se o escorpião tivesse um desenho secreto de ferrão guardado e mesmo que você quebre a ponta, o desenho não some; a segunda é que os filhotes nascem sem ferrão, e aí é mais estranho ainda, porque seria como se o mundo aceitasse que você muda o futuro só mexendo no corpo de alguém, tipo você tira uma parte e pronto, o universo “aprende” e para de fabricar aquilo, só que tem outra coisa que me pega: e se o ferrão for tipo uma mentira do corpo? Tipo assim, o escorpião fica sem ferrão, mas lá dentro ele ainda “acha” que tem, ele continua sendo um escorpião com ferrão no pensamento dele (se escorpiões pensam), e aí o bebê nasce com ferrão porque o escorpião nunca deixou de ser “escorpião completo” por dentro, e eu sei que isso parece coisa de filme, mas repara: quando a gente corta o cabelo, ele cresce de novo, mas se a gente corta um dedo, não cresce, então o corpo tem regras, e eu queria muito saber qual regra manda no ferrão do escorpião, porque se o bebê nasce com ferrão, então existe uma parte do mundo que não liga pro que aconteceu com o corpo, ela liga pro plano original, como se tivesse um manual invisível de cada bicho, e eu fico imaginando a natureza olhando e falando “pode cortar o ferrão aí, mas eu continuo imprimindo ferrão, tá no projeto”, e aí minha dúvida não é só sobre escorpião, é sobre a gente também, porque parece que a gente muda as coisas por fora, mas por dentro fica um desenho escondido insistindo, então a pergunta vira outra, bem pior e bem mais interessante: a gente muda as coisas de verdade, ou só muda a aparência delas, e se você cortar de alguém tudo que faz ela ser ela, o que nasce depois ainda vai vir igual?
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