O Amor Como Cartório Emocional

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Tudo começa com uma ideia. Talvez você queira abrir um negócio. Talvez você queira transformar um passatempo em algo mais sério. Ou talvez você tenha um projeto criativo para divulgar ao mundo. Seja o que for, o modo de contar sua história on-line faz toda a diferença.

Não se preocupe em parecer profissional. Seja você mesmo. Existem mais de 1,5 bilhão de sites, mas a sua história é o diferencial que separa você dos outros. Se você ler as palavras em voz alta e não se sentir identificado, isso significa que o texto ainda precisa ser trabalhado.

Seja claro, tenha confiança e não pense demais. O melhor da sua história é que ela vai continuar evoluindo, e o site pode acompanhar essa evolução. Seu objetivo deve ser fazer com que ele seja ideal para este momento. Depois, ele vai se ajustando sozinho. É sempre assim.

O Amor Como Cartório Emocional por Abraham Cezar
Photo by Ilyasick Photo on Pexels.com

O casal ocupa a mesa de canto do restaurante.

A iluminação é baixa o suficiente para favorecer mentiras pequenas e sinceridades incompletas. Sobre a mesa há uma garrafa de vinho quase vazia, dois pratos abandonados pela metade e um silêncio tão organizado que parece ensaiado.

Eles mantêm as mãos dadas.

Quem passa acredita estar diante de uma cena de amor.

Na verdade, quase todos os relacionamentos duradouros dependem dessa capacidade de parecer uma coisa enquanto lentamente se transformam em outra.

Ninguém observa os dedos.

O homem aperta a mão da mulher com força excessiva. Ela devolve exatamente a mesma pressão.

Não há ternura naquele gesto.

Existe coordenação.

Como dois alpinistas presos à mesma corda sobre um desfiladeiro.

O curioso é que eles não brigaram.

Não houve traição recente.

Não existe uma crise visível naquela mesa.

As pessoas imaginam que os relacionamentos acabam por excesso de conflito.

A maioria apodrece por excesso de adaptação.

Eles se conhecem há tempo suficiente para antecipar frases inteiras antes que sejam pronunciadas.

Ele sabe quais histórias ela contará aos amigos.

Ela sabe quais opiniões ele terá sobre assuntos que ainda nem aconteceram.

Já não precisam descobrir um ao outro.

Restou administrar um ao outro.

E existe uma diferença brutal entre as duas coisas.

O amor nasce da descoberta.

O vínculo sobrevive da administração.

Poucos admitem isso.

Ela sorri quando ele fala.

Ele sorri quando ela responde.

Nenhum dos dois percebe que os sorrisos surgem sempre meio segundo atrasados.

Como funcionários experientes executando procedimentos que já não exigem atenção consciente.

O garçom passa e os observa com inveja.

Uma mesa adiante, uma mulher solteira os observa com nostalgia.

No fundo do salão, um homem recém-divorciado os observa com amargura.

Todos enxergam naqueles dois aquilo que desejam enxergar.

Ninguém enxerga o que realmente está acontecendo.

O casal não está celebrando a própria felicidade.

Está protegendo uma construção.

Existe uma diferença.

Construções exigem manutenção.

Felicidade não.

Eles apertam as mãos porque o contato contínuo impede uma pergunta perigosa de surgir.

Não a pergunta sobre o outro.

A pergunta sobre si mesmos.

Porque há algo que ninguém comenta sobre relacionamentos longos.

Depois de muitos anos, o parceiro deixa de ser apenas companhia.

Ele se torna testemunha.

A pessoa que confirma diariamente que você continua sendo quem acredita ser.

Ele conhece a versão dela.

Ela conhece a versão dele.

Cada um funciona como um cartório emocional do outro.

E perder um parceiro nem sempre significa perder alguém amado.

Às vezes significa perder a única pessoa que ainda valida uma identidade inteira.

Talvez por isso tantas separações pareçam amputações e não despedidas.

O medo raramente é da solidão.

O medo é descobrir quem sobra quando não existe mais ninguém para confirmar a narrativa.

O vinho acaba.

A conversa diminui.

O restaurante enche.

Os sons das outras mesas começam a atravessar o silêncio cuidadosamente administrado entre eles.

Então o garçom traz a conta.

O homem solta a mão da mulher para alcançar a carteira.

O movimento dura poucos segundos.

Mas algo acontece.

O espaço entre os dois é ocupado imediatamente pelo mundo.

O barulho dos talheres.

As risadas das outras mesas.

O tilintar dos copos.

A música ambiente.

Tudo aquilo que permaneceu invisível durante a noite inteira invade a cena de uma só vez.

Ela olha para a própria taça.

Ele procura o cartão.

Nenhum dos dois fala.

Porque naquele breve intervalo surge uma pergunta que os dois passaram anos ajudando o outro a não fazer.

E talvez o amor tenha menos relação com encontrar alguém.

Talvez tenha mais relação com encontrar alguém disposto a segurar a pergunta junto com você.

Pelo maior tempo possível.

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