Abraham Cezar

Aquilo Que Escolhe em Nós Quando Ninguém Está Olhando

Aquilo Que Escolhe em Nós Quando Ninguém Está Olhando | Abraham Cezar

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Existe uma parte de nós que aprende a entrar no mundo com o rosto adequado. Ela sabe a hora de sorrir, a frase que deve ser dita, o silêncio que parece nobre, a indignação que nos faz parecer justos, a humildade que não ameaça ninguém. Essa parte não é necessariamente falsa. Muitas vezes, é apenas civilizada. O problema começa quando passamos a confundi-la com a totalidade do que somos.

Há outra presença em nós. Menos educada, menos apresentável, menos disposta a obedecer à biografia que contamos. Ela aparece no pensamento que não confessamos, na inveja que disfarçamos de crítica, no prazer secreto diante da queda de alguém, na irritação desproporcional, no medo que se veste de princípio, no desejo que negamos até ele começar a governar por baixo.

O que não olhamos não deixa de existir. Apenas perde a linguagem e ganha método. Torna-se hábito, impulso, repetição, escolha automática. Pensamos estar decidindo, mas talvez estejamos apenas obedecendo a antigas impressões gravadas no subterrâneo da mente. A sombra não precisa gritar para nos conduzir. Às vezes, basta que ela incline levemente nossa percepção, e passamos a chamar de destino aquilo que foi apenas inconsciência repetida.

Talvez a pergunta mais incômoda não seja “quem sou eu?”, mas “quem em mim está escolhendo quando eu acredito estar escolhendo?”. Há decisões que nascem da clareza, mas há outras que nascem da ferida tentando evitar nova dor. Há virtudes que são maduras, e há virtudes que são apenas medo de punição. Há bondades que vêm do amor, e há bondades que vêm do pânico de ser rejeitado. Há silêncios que são sabedoria, e há silêncios que são covardia bem-vestida.

O autoconhecimento começa quando deixamos de nos observar como advogados de defesa. Enquanto cada gesto nosso encontrar uma justificativa elegante, nenhuma verdade entrará. É preciso suportar a cena inteira: o impulso antes da frase, a intenção antes do ato, a emoção antes da explicação. Porque quase sempre a consciência chega atrasada, quando o corpo já se defendeu, a língua já feriu, a imaginação já condenou, o orgulho já inventou uma narrativa em que continuamos inocentes.

A maturidade talvez seja a capacidade de perceber o intervalo. Aquele pequeno espaço entre a ofensa e a resposta, entre o desejo e a ação, entre o medo e a máscara. Nesse intervalo, algo em nós pode deixar de ser escravo. Mas esse espaço não se abre por acaso. Ele nasce de vigilância íntima, de repetição, de disciplina silenciosa, de uma honestidade que não depende de testemunhas.

Somos, em alguma medida, uma república interior. Há forças que querem governar pela razão, outras pela paixão, outras pelo ressentimento, outras pela vaidade. Quando a justiça interna enfraquece, qualquer impulso vira tirano. E um homem pode parecer admirável por fora enquanto vive, por dentro, sob o governo de apetites que não ousa nomear.

Por isso, a sombra não deve ser adorada nem destruída. Deve ser escutada com firmeza. Ela não é a nossa essência final, mas carrega notícias importantes sobre aquilo que foi negado, ferido, reprimido ou mal compreendido. Integrá-la não é obedecê-la. É retirar dela o poder de agir escondida.

Quem só é bom quando está sendo visto ainda não encontrou a bondade; encontrou a vigilância. Quem só é honesto quando há consequência ainda não ama a verdade; teme a exposição. Quem só é calmo quando tudo o favorece ainda não conhece a paz; conhece o conforto. O caráter real começa no ponto em que nenhuma plateia nos premia e nenhuma punição nos ameaça.

Talvez seja no quarto vazio, no pensamento não publicado, na reação que conseguimos conter, na inveja que conseguimos confessar a nós mesmos, no perdão que ainda não conseguimos oferecer, que a vida espiritual, moral e psicológica realmente começa. Não no palco da coerência, mas no porão onde descobrimos que também somos feitos daquilo que condenamos.

E se aquilo que mais me irrita no outro for uma carta enviada por uma parte esquecida de mim?

Se ninguém pudesse me elogiar, eu ainda escolheria o bem?

Quando digo “eu sou assim”, estou descrevendo minha natureza ou apenas protegendo um hábito antigo?

Quantas das minhas certezas são verdades, e quantas são feridas que aprenderam a argumentar?

O que em mim chama de justiça aquilo que talvez seja apenas desejo de revanche?

Qual virtude eu perderia se ninguém jamais soubesse que a pratiquei?

Que tipo de pessoa aparece quando minha imagem não precisa ser defendida?

O que meu silêncio revela quando não há ninguém para interpretá-lo como profundidade?

Qual parte de mim eu transformei em inimiga apenas porque não soube educá-la?

E se tornar-me inteiro não significar eliminar minha sombra, mas impedir que ela continue escolhendo em meu nome?

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