Eu observo. Não faço inventário de mágoas, não coleciono cenas para exibição futura. Mas certas lembranças permanecem em pé como postes na calçada: não atrapalham a passagem, só lembram por onde se anda. Há quem chame isso de dureza; eu prefiro chamar de lucidez doméstica, dessas que evitam tropeços repetidos. A paz, afinal, não exige ingenuidade, apenas critério.
Com o tempo, aprendi que seguir adiante não é rasgar páginas, é marcar parágrafos. A vida continua legível quando se aceita que algumas histórias não pedem continuação, apenas compreensão silenciosa. Assim, caminho leve, sem punhos cerrados, mas com os olhos abertos o suficiente para não confundir portas com paredes, porque não guardo rancor, mas também não sofro de amnésia.
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