Abraham Cezar

Havia um tempo em que eu confundia perdão com esquecimento, como quem acredita que varrer a sala apaga as pegadas de quem entrou sem pedir licença. Hoje sei melhor. O mundo ensina por repetição: as mesmas pessoas, os mesmos gestos, só mudam o cenário e o figurino. Algumas pedem desculpas como quem pede um café curto — rápido, automático, sem realmente sentir o gosto. Outras seguem em frente convencidas de que o silêncio alheio é sinônimo de absolvição.

Eu observo. Não faço inventário de mágoas, não coleciono cenas para exibição futura. Mas certas lembranças permanecem em pé como postes na calçada: não atrapalham a passagem, só lembram por onde se anda. Há quem chame isso de dureza; eu prefiro chamar de lucidez doméstica, dessas que evitam tropeços repetidos. A paz, afinal, não exige ingenuidade, apenas critério.

Com o tempo, aprendi que seguir adiante não é rasgar páginas, é marcar parágrafos. A vida continua legível quando se aceita que algumas histórias não pedem continuação, apenas compreensão silenciosa. Assim, caminho leve, sem punhos cerrados, mas com os olhos abertos o suficiente para não confundir portas com paredes, porque não guardo rancor, mas também não sofro de amnésia.

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